sexta-feira, 6 de setembro de 2013

# Sobre a dança e seus desvios


Quando sou dança? Quem sou quando me disponho a ser outra coisa que aos outros parece que não sou eu? Quem eu sou quando sou dança?

Aos olhos sonolentos, daqueles que não sabem, mas dormem e tão poucos sonham, certas perguntas podem parecer bobas. Não porque dançar é simplesmente dançar ou porque quando danço sou simples e objetivamente aquele que esta dançando, mas porque aos olhos poéticos todos dançam o tempo todo. E a esses mesmos olhos o todo de dança dos outros parece ser a fuga distraída de tudo que se é além da consciência dos nomes.

Por isso, num relance de iluminação o poeta do corpo acaba se perguntando: "Quem sou quando sou dança?"; ele se pergunta assim porque desconfia que dançar não tem haver só com os movimentos visíveis, e porque quer saber pelo movimento que lhe escapa tudo aquilo que ele pode ser, ou já esta sendo sem perceber. Ele sofre de movimento sabido e por isso a vida lhe excessiva.

"O que vem antes dos nomes?". Ele se pergunta. "O que move o falar ou até mesmo o pensar? O que é tudo isso que, tanto me sobrando, eu tento esconder?".

Não sei quando sou dança, mas tenho sabido quando a dança me é - talvez isso tenha ocorrido agora, e pelo excesso de fala eu não tenha me dado conta da absoluta unidade das partes, sempre diferentes e si mesmas, sempre unas, sempre um caleidoscópio de gestos infinitos e indivisíveis.

Sou muitas coisas e não sabendo que as sou vou sendo, porque os antigos antes dos antigos diziam que sendo, se é: cada vez um novo homem, cada vez um novo rio, cada vez uma nova dança, cada vez um novo mesmo Deus que não é infinitamente perfeito sobre as quantidades, mas absolutamente infinito no interior da cada qualidade (sejam visíveis ou não).

Me parece que é bem verdade o que certa vez me disseram: certas coisas só se revelam no cansaço da busca, quando pensamos não querê-las mais elas nos vem até que nos são; pelo afrouxamento do querer, pela despretensão da vontade tornamo-nos mais que dominadores, somos fazidos território do governo que não começa nem termina, pois de tanto se mover perdoou seu começo ou fim.

Quando me dispensei em dançar foi quando ela mais me dançou, e dai me dei conta, não de que eu já era um outro eu, mas sim de que nunca, por uma impossibilidade imposta por Deus, qualquer um de nós poderíamos ser o mesmo. Desde então, me esvaziei das legiões, e me habitei de toda diferença do infinito.

Uma grande estrada, muitas pessoas de um lado, muitas pessoas do outro,carros, um semáforo preste a nos liberar passagem. Atravessando a rua - assim, desprovidos de palco, luzes elétricas e qualquer atenção de algum público - a dança se mostrou. E no desvio de um corpo na contra-mão,  atravanquei com outro; nessa dispersão me estendi e ouvi com clareza quando meu estomago falou: "A dança é esquecimento e distração!".

Rapidamente pensei: Coitados eram os clássicos! Coitado de mim que quis ser como ele e achava que com concentração e disciplina, como eles, eu dançaria mais. Enquanto na transformação de seus corpos, eles mal percebiam que mesmo na tentativa de parar a dança lhes dançava pelas brechas da atenção.


O movimento não faz acepção de pessoas e a tudo transforma, por isso todos dançam independente de qualquer ato coreográfico - a escrita é só falar sobre, enquanto a fala é sempre um ato de enunciação da própria vida; sobre nada mais fala a vida se não de si mesma.

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