Quando sou dança? Quem
sou quando me disponho a ser outra coisa que aos outros parece que não sou eu?
Quem eu sou quando sou dança?
Aos olhos sonolentos,
daqueles que não sabem, mas dormem e tão poucos sonham, certas perguntas podem
parecer bobas. Não porque dançar é simplesmente dançar ou porque quando danço
sou simples e objetivamente aquele que esta dançando, mas porque aos olhos
poéticos todos dançam o tempo todo. E a esses mesmos olhos o todo de dança dos
outros parece ser a fuga distraída de tudo que se é além da consciência dos
nomes.
Por isso, num relance de
iluminação o poeta do corpo acaba se perguntando: "Quem sou quando sou
dança?"; ele se pergunta assim porque desconfia que dançar não tem haver
só com os movimentos visíveis, e porque quer saber pelo movimento que lhe
escapa tudo aquilo que ele pode ser, ou já esta sendo sem perceber. Ele sofre
de movimento sabido e por isso a vida lhe excessiva.
"O que vem antes dos
nomes?". Ele se pergunta. "O que move o falar ou até mesmo o pensar?
O que é tudo isso que, tanto me sobrando, eu tento esconder?".
Não sei quando sou dança,
mas tenho sabido quando a dança me é - talvez isso tenha ocorrido agora, e pelo
excesso de fala eu não tenha me dado conta da absoluta unidade das partes,
sempre diferentes e si mesmas, sempre unas, sempre um caleidoscópio de gestos
infinitos e indivisíveis.
Sou muitas coisas e não
sabendo que as sou vou sendo, porque os antigos antes dos antigos diziam que
sendo, se é: cada vez um novo homem, cada vez um novo rio, cada vez uma nova
dança, cada vez um novo mesmo Deus que não é infinitamente perfeito sobre as
quantidades, mas absolutamente infinito no interior da cada qualidade (sejam
visíveis ou não).
Me parece que é bem
verdade o que certa vez me disseram: certas coisas só se revelam no cansaço da
busca, quando pensamos não querê-las mais elas nos vem até que nos são; pelo
afrouxamento do querer, pela despretensão da vontade tornamo-nos mais que
dominadores, somos fazidos território do governo que não começa nem termina,
pois de tanto se mover perdoou seu começo ou fim.
Quando me dispensei em
dançar foi quando ela mais me dançou, e dai me dei conta, não de que eu já era
um outro eu, mas sim de que nunca, por uma impossibilidade imposta por Deus, qualquer
um de nós poderíamos ser o mesmo. Desde então, me esvaziei das legiões, e me
habitei de toda diferença do infinito.
Uma grande estrada,
muitas pessoas de um lado, muitas pessoas do outro,carros, um semáforo preste a
nos liberar passagem. Atravessando a rua - assim, desprovidos de palco, luzes
elétricas e qualquer atenção de algum público - a dança se mostrou. E no desvio
de um corpo na contra-mão, atravanquei
com outro; nessa dispersão me estendi e ouvi com clareza quando meu estomago
falou: "A dança é esquecimento e distração!".
Rapidamente pensei:
Coitados eram os clássicos! Coitado de mim que quis ser como ele e achava que
com concentração e disciplina, como eles, eu dançaria mais. Enquanto na
transformação de seus corpos, eles mal percebiam que mesmo na tentativa de
parar a dança lhes dançava pelas brechas da atenção.
O movimento não faz acepção
de pessoas e a tudo transforma, por isso todos dançam independente de qualquer
ato coreográfico - a escrita é só falar sobre, enquanto a fala é sempre um ato
de enunciação da própria vida; sobre nada mais fala a vida se não de si mesma.
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