Quando ele era pequeno...
Ele entendia as coisas bem
melhor do que agora. Hoje, eu sei o nome das coisas, o que não garante que ele
saiba quem elas são de verdade.
Eu sei o meu nome. E tenho
certeza, ele não tem ponto final.
Sei também como dizer pras
pessoas com certa maestria aquilo que me encorajei fazer da vida.
Somos mestres em
Descontentação de Histórias.
Tenho construído mundos com
isso. Mas diferente do que muitos pensam a arte de descontentar histórias não
consiste somente no domínio das palavras. As palavras são só o endereço que a
gente dá pras coisas e não as coisas propriamente ditas. Só porque a gente
mora, queremos que todas as coisas morem também. Não permitimos que elas
existam livres.
O trabalho do descontentador
de histórias é libertar as coisas dos nomes que deram pra elas. Descontentes
elas não se permitem aos limites. Elas adoecem. Tontas e febris elas me parecem
mais próximas de nós. Embevecidas de paixão elas estão prontas para conhecer
algo só num contato puro de coisa pra coisa, onde mais do que chama-la pelo
nome, se pode beijá-las num estado vivo e por isso inominável. É nesse instante
que em que a boca começa a falar daquilo que conheceu por si mesma e não por
aquilo que lhe contaram os ouvidos. Fala-se muito melhor daquilo que já se
beijou.
Reconhece-se um
descontentador de histórias pelo cheiro de terra úmida em suas mãos. E pelos
pequenos ramos de toda diversidade de árvores que lhe crescem na superfície da
cabeça. Uma vez conheci uma mulher que dedicara a sua vida a essa arte. Ela sim
estava em outro estado, não tinha mais cheiro de terra, já tinha cheiro de
orvalho. E na sua cabeça... brotava um grande jequitibá, entre outras
infinidades de espécies. E o fruto dos seus pensamentos alimentava a multidão
daqueles que lhe buscavam pra que ela lhes mostrasse suas insignificâncias mais
preciosas.
Quando eu era pequeno...
Lembro-me de uma determinada
música. Tocava-me profundamente. Os embotados de idade não a entendiam, ou
esqueceram porque lhes obrigaram se adultificarem. Ela era mais ou menos assim,
oh:
“Sou uma florzinha de Jesus
Sou uma florzinha de Jesus
Abro a boquinha para cantar
Fechos os olhinhos para
orar”
Um clássico!
Mas eles nunca me
entenderam. É muito cansativo explicar sobre a vida para gente grande. Uma vez
tentei explicar pro meu vizinho como pegar brilho de estrela com coador de
café... Hum! E quando chegava em casa e falava sobre um novo amigo, meus pais
“jamais se interessavam em saber quem ele é. Não perguntavam nunca: ‘Qual o som
de sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?
[Qual é o seu cheiro?].’ Mas perguntam: ‘Qual é sua idade? Quantos irmão ele
tem? [É gordo?] Quanto ganha seu pai?’ Só assim, então, acreditavam conhecê-lo.”[1]
Não posso julgá-los por
isso. Meus pais eram da raça das águias, mas conseguiram convence-los de que eram
ratos. Eles não sabem mais voar. Sabe?! Não importa se as coisas são verdades
ou não. Acreditar já é o suficiente pra fazê-las vivas.
Hã?!
Se eu sei voar?! Ah, ele
acredita nisso.
Como?
Aprendemos com um amigo que
colecionava borboletas livres. Eu plantava árvores pra que elas tivessem aonde
construir os casulos. E elas – eu dizia pra mim mesmo – batiam as asas mais
forte quando passavam por ele. Suas cores diziam obrigada.
Quando ele já não era tão
pequeno... ou pelo menos diziam que eu não deveria ser...
Num incerto dia quando
estava cansado das tocas, voei para longe da mentira de ser rato.
Pousei numa praia onde achei
poder esquecer do restante, e emprestar-me a conhecer as profundezas das águas,
a final já conheci a escuridão das tocas e a claridade dos céus.
Então pedi licença e entrei
em sua casa.
[mergulho corporal no copo
d’água]
O toque das águas me fazia
sentir a profundidade de onde eu havia me colocado. Deixei-me levar por suas
ondas e quando percebi, estava longe da margem. Estava profundo.
Aos poucos, sem que eu me
desse conta o tempo se fechou e as ondas agitavam-se com a tristeza acinzentada dos céus. Os leves
e densos toques do mar se (en)tornaram golpes contra o meu corpo. Os golpes
advinham de fora e de dentro. Pude sentir que as profundidades me trouxeram um
corpo agora de adulto. A pureza e a inocência me escorriam por entre as pernas
e os olhos. Os músculos cansados e ossos roídos se faziam outros – nos faziam
outros – e por causa deles a mente já não era mais a mesma.
Quando me percebi capturado
pelas artimanhas da minha vontade de mudar, decide que o melhor era sair voando
daqui. Mas a escuridão ao redor era maior que a minha vontade.
Por algum motivo as águas
tentavam puxar-me para o fundo e mais fundo. Até que pude ver, em uma
respiração profunda que em um salto dei para a superfície, uma parte pequena do
céu que se abria e assim mostrava-me o brilho longínquo de uma estrela solitária.
Solitária como eu.
[Novamente as ondas me
puxaram para o fundo]
Decidi que meu segundo salto
seria para sair de dentro d’água voando em direção a estrela. E assim o fiz. E
subi, subi, subi, mas ainda assim como uma mão cujos dedos fecham-se
pressionando algo muito precioso, eram como correntes que insistiam em envolver
meu corpo. Ele, eu, nós que lutávamos para subir e tocar a estrela.
Cada vez fazia mais força e
por isso, mais estava perto. As águas não me largavam. Estendi minhas mãos o
máximo que pude e cada esforço nos trazia mais próximo do calor e brilho da
estrela.
Foi quando a estrela sentiu
o cheiro de terra nas mãos dele, e se aproximou também.
Próximo o suficiente para
tocar o seu calor, já se podiam ver seis fiches de luz que brotavam do fetiche
de amor da estrela por mim. Agarrei-os com paixão!
Meus poros dilatavam-se. A
luz nos penetravam, seguindo caminho pelas veias. Se alguém lhe olhasse de fora
veria que existiam cidades inteiras iluminadas dentro do meu corpo.
A estrela e a minha mão já
quase eram uma. Nas minhas pernas as correntes d’água aos poucos se desfaziam.
O vento lhe soprava a alma que se virava do avesso. O brilho delas já estava a
me entornar os olhos e calar os ouvidos... Tocá-la.
[colocar a capa sobre o
rosto e sair para o fundo “curtindo uma dancinha” e sussurrando/cantarolando:]
“Sou uma florzinha de Jesus
Sou uma florzinha de Jesus
Abro a boquinha para cantar
Fechos os olhinhos para orar”
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